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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Nós, entre vírgulas.

Lá fora está chovendo,
chovendo muito em pingos pequenos!
E eu aqui dentro!
Do lado de dentro do quarto vazio,
da vida vazia.
Lá fora, está chovendo,
em pingos pequenos,
está muito vento e eu aqui dentro, preso, penso
em destilados e cigarros,
chuvas me lembram isso,
exceto quando são acompanhadas por alguém,
mas nesse caso, não há destilado,
há somente meio maço de "free" amaçado,
e essa falta de alguém.
Há também Miles Davis soprando um jazz,
há pessoass chamando atenção
por mensagens instantâneas,
mas não estou interessado nelas agora,
pelo menos não nas que estão chamando atenção,
nada irrita mais do que o som das pessoas chamando,
há, claro, as vezes em quem ninguém liga,
mas quando chove pouco importa se alguém liga
porque tudo fica tão lírico
e vital que até os móveis se transmutam em algo animado,
talvez fosse possível conversar com eles,
os velhos móveis,
da velha sala,
sempre tão vazia.
A vida, as vezes,
parece viver entre vírgulas.
(por: A.C.)

Aos cuidados do fabricante

Eu quero, sinto que devo querer algo, mas não sei bem o que. Talvez não tenha nome, nem forma, nem cor, nem seja velho ou novo, nem seja inédito, mas sinto que devo querer. E a menina dos olhos de cigana, diz: "Os psicólogos são ótimos, eles dizem pra você falar tudo que está entalado e continuar sempre expressando seus sentimentos.", e depois arremata: "Mas sempre achei que seus problemas todos se resolvem com sexo.", é, deve ser atraso mesmo. Uma sessão de pornoanálise com ela talvez resolvesse, e tirasse essa idéia besta de analista da minha caixa de grilos:
- Isso, chupa esse complexo, só mais um pouco e você engole a depressão.
Em breve estaria lá ejaculando todos os entupimentos do meu super ego, até alcançar a paz novamente, deveria funcionar, sempre funcionou, mas acho que dessa vez, só uma vez, vou tentar os barbitúricos, os ansiolíticos, os analgésicos.
Amanhã, será preciso voltar aos números frios e rígidos da vida como ela tem que ser, deve ser, e não como precisa ser para alguém que deseja, solenemente e simplesmente, viver.
Não há nada de errado, nada mesmo, sou eu que vim com defeito de fábrica.

(por: A.C.)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Há urgência em estar vivo

Por mais que vivamos dia após dia nessa busca inacabável de romper com qualquer tipo de corrente que finque nossos membros ao chão de concreto resistente e aparentemente inabalável, aqui estamos nós outra vez, nos mostrando cada vez mais certos de nossas fragilidades, mais humanos.
Precisamos do que precisamos porque precisamos, isso basta para regir nossas vidas, uma pena, eu sei, mas é. Queria ter uma caixinha que desse pra guardar a gargalhada de cada amigo que eu tenho, de cada pessoa que eu amo ou amei. Queria ter um cartão de crédito que eu soubesse usar e realmente me desse crédito, seja lá qual for o significado dessa palavra. Queria que nas festas tocasse pelo menos uma música que me fizesse dançar pra suar e largar de lado o bolo que eu estava atirando aos peixes.
Seríamos tolos se não assumíssemos que estamos no caminho, mas sabe quando você já percorreu uma distância tão longa que não dá mais pra voltar, mas também as pernas não resistem seguir em frente? Aqui estamos nós, aqui estou eu, sentado no chão da estrada esperando a canseira passar.

(Por: C.O.)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Absurdo.



Outro dia entrei no
Omegle, fiquei conversando com uma chinesa, ela disse que entrava na internet escondida, porque o marido dela não deixava, mas ele tinha o direito de acessar quando quisesse.Ele também não a permitia sair de casa a não ser para fazer compras ou levar os filhos à escola. Dei a ela o conselho que continuasse entrando com mais frequência e que assim que possível, largasse o marido, ela disse que não porque considerava normais as atitudes dele. Depois de muita conversa, ela também disse que há tempos não sentia prazer, aconselhei-a que se masturbasse, já que não podia sair de casa, ela achou um absurdo e desconectou.

( Por: C.O. )


p.s.: arte roubada da internet.

domingo, 5 de julho de 2009

Lá se foi mais uma garrafa de atitude.

Foda-se.
São duas e quatorze da manhã e eu estou sentado na frente do computador escrevendo um texto que eu nem sei ao certo se tem um propósito real ou se só serve como saco de pancadas. Me proponho a escrevê-lo do início ao fim sem apertar nenhuma vez o backspace.
Lá se foi mais uma garrafa de atitude, eu ainda me lembro da época (que vale lembrar que não faz tanto tempo) em que pra fazer um show eu precisava ir andando por uns cinco quarteirões carregando um bumbo de bateria nas costas, enquanto os moleques da minha e das outras bandas carregavam a magnífica aparelhagem que nós tínhamos: o resto da bateria e uma única caixa amplificadora, onde era ligado nela o baixo, a guitarra e o microfone. Carregávamos tudo até o bar o qual o dono havia com antecedência liberado pra fazermos o evento, é claro que quando eles perguntavam o estilo das bandas, nós dizíamos que era "rock", só rock. Ele esperava algo no estilo Titãs ou Paralamas, tenho certeza.
Armávamos tudo com antecedência, era uma verdadeira organização, desenhávamos os flyers à mão, com os nomes das bandas e endereço, levávamos em algum bazar e tirávamos as xerox, depois levávamos pra casa de alguém e começávamos a recortar tudo, pra no outro dia levar pra escola e entregar pros amigos, convidando eles pro tão esperado show.
Quando chegava no dia, tínhamos sempre que marcar um ponto de encontro com o pessoal que havia confirmado presença, porque os locais que arranjávamos pra tocar eram sempre muito isolados do centro do bairro, logo, difícil acesso. Como a entrada era gratuita, costumava lotar de roqueiros, bêbados e curiosos que iam ver a barulheira feita por moleques. Não dava pra ouvir nada direito, a guitarra e o baixo pareciam um instrumento só abafado por uma britadeira, a bateria parecia era abafada pelo resto todo, já que não tínhamos como microfoná-la, e a voz, nem comento. Sempre tinha que acabar o show antes das últimas duas músicas, porque eu começava a cuspir sangue e ficava preocupado com isso.
Tínhamos sempre a previsão de terminar as dez horas da noite, mas sempre acabava as nove porque alguns dos adolescentes beberrões acabavam brigando, ou o dono ou moradores da redondeza chamavam a polícia, incomodados com a poluição sonora que fazíamos.

Sim, eu me orgulho de ter vivido dessa maneira e me entristece saber que um filhinho de papai se aborrece quando não sai bonito na foto que tiraram dele no palco, se aborrece quando a banda dele não foi a vencedora do concurso que lhe prometia uma gravação linda, se aborrece quando ouve um não, me entristece todos esses merdas que não estão acostumados a ouvir os "nãos" e estão acostumados a ter apenas "sim", mas NUNCA se acostumaram a correr atrás.

Façam vocês mesmos, daí sim, o rock não haverá de morrer.

( Por : C.O. )

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Pré-pós-00 (anúncio)

E as cabeleiras extáticas de anjos pré-pós-adolescência
Estão em exposição em blogs descolados
Talvez seja o empuxo inicial de um novo movimento
Vanguarda pós-00
Alguns deles são meus heróis e nem suspeitam
Tanto tempo com suas mentes brilhantes
Mergulhadas nas latrinas cheias das suas palavras
Agora eles vão deixando seus restos de rebeldia juvenil
E fazendo algo
Vai com fé que pode ser
O primeiro passo em direção ao muro
De Berlim
De Verdade
Eles tem as suas canções
Seus discos do século passado
Suas guitarras para harmonizar o futuro
Eles estão esperando a hora de se descobrirem heróis
Eles estão no momento antes do pulo
Eu espero que eles subam alto
Eu espero que eles não se contentem em olhar o mundo do alto
Eu espero que eles tenham pedras nos sapatos
E que eles cerrem seus dentes na hora certa pra resistir
E pra sorrir.

( Por: A.C. )

domingo, 26 de abril de 2009

Dor de cabeça.


( Por : C.O. )

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Eu, que era feliz e não sabia
resumi todo meu arrependimento
num discurso de ironia.

( Por : C.O. )

sábado, 24 de janeiro de 2009

10 cadeiras

Um círculo de 10 cadeiras.
- Meu nome é Davi.
Todos respondem em coro: "Olááá Davi!".
- Bem, eu sou alcoólatra há mais ou menos dois anos e meio. Mas graças a este grupo de alcoólicos anônimos eu estou sem beber há três semanas.
- Isso é ótimo, Davi!
- Obrigado pessoal, não sei o que seria da minha vida sem vocês, obrigado mesmo!
Davi se senta, todos o aplaudem e a mulher que senta em uma das cadeiras que formam o círculo no salão se levanta.
- Muito bem gente, mais alguém gostaria de dar um testemunho?
Eu me levanto.
- Oi galera, meu nome não é relevante, esse é meu primeiro dia aqui.
O mesmo coro de antes: "Olááá Meu Nome Não É Relevante!".
- Pois bem, vim aqui porque não sou alcoólatra, não tenho problema algum e não quero me curar de nada.Neste momento vocês devem estar achando que estou vivendo uma fase de negação, pois eu nego essa afirmação e digo que não estou vivendo uma fase de negação, por mais contraditório que isso possa parecer.
- Muito bem, sabichão, o que está fazendo aqui então? - Pergunta um dos membros do A.A.
- Eu estou aqui porque acredito numa sociedade livre.
- Como assim?!
- Mentira, só achei que seria uma maneira legal de começar a responder o que você respondeu... Pois bem, eu estou aqui porque estou afim de tomar um trago.
Tiro uma garrafa de Contini da mochila e começo a beber no gargalo. A mediadora da reunião se levanta da cadeira e começa a gritar.
- O que o senhor pensa que está fazendo?! Por favor, se retire ou vou chamar a polícia!
- Por favor senhora, sente o rabo na cadeira ou terei que fazer isso por você.
Ela se senta e se cala. Eu termino minha garrafa.
- Agora, com licença.
Eu saio cambaleando do clube e começo a vomitar na calçada. Vomito tanto que além do meu almoço eu posso ver sangue, almoço de ontem, coisas que se parecem com algodão e muito líquido ácido.
A mediadora se altera mais uma vez.
- Esse homem é um perturbado mental! Vou ligar pra polícia!
Eu corro pra dentro do clube novamente, ainda limpando o vômito da boca e me lanço pra cima da mulher.
- Você não vai tocar no telefone.
Começo a vomitar novamente, agora no meio do salão. Um dos bebuns se enoja com a cena e começa a vomitar também, um pouco do vômito dele respinga no rapaz ao lado dele, que começa a vomitar também. Uma poça enorme de vômito começa a se formar no centro do círculo. Não perco mais tempo tentando me limpar, minhas roupas já estão tomadas e precisarei jogá-las fora quando chegar na minha casa.
Um dos homens do círculo desmaia, o que estava sentado ao lado do desmaiado tenta reanimá-lo com uma pressão sobre o peito, com a pressão o desmaiado vomita, logo, o reanimador começa a vomitar também.
O cheiro pútrido toma todo o salão. Finalmente, eu consigo me ver são novamente, sento no chão e espero todos terminarem.
Alguns minutos depois, todos estão sentados em suas cadeiras e chocados com a cena que acabara de acontecer ali. Eu abro minha mochila e tiro mais nove garrafas de Contini vazias, com o auxílio de uma pá e um funil começo a encher as garrafas com o vômito da poça gigantesca que se formou no chão. Todos me observam sem nenhuma reação.
Quando termino, dou uma garrafa pra cada um.
- Vocês que receberam as garrafas, levem-nas para suas casas e guardem-nas em suas geladeiras.
Me viro para a mediadora do grupo.
- A senhorita pode fechar as portas desse lugar.

( Por: C.O. )

domingo, 4 de janeiro de 2009

Logo no meu telhado.

Sexta-feira à noite. Eu chego a casa cansado de um dia árduo de trabalho e não tenho nada para mim, nenhum filho esperando pra falar que tirou notas boas na escola, nenhum amigo me ligando pra ir tomar cerveja, nenhuma mulher me esperando pra me satisfazer a fome e depois me satisfazer a fome, se é que você me entende. Faz dois meses que eu me divorciei, estou morando aqui nesse apartamento alugado, ainda não desfiz minhas malas porque tenho uma falsa esperança de que ela vai me ligar pedindo pra voltar comigo, as esperanças são as últimas a morrer, até mesmo as falsas. A única coisa que me restou foi uma facada que o governo apelidou de “pensão”, uma frigideira e um gato chamado Arthur. Gato este que nunca está em casa quando eu chego, anda a noite inteira pela rua atrás de gatas pra trepar nos telhados alheios... O desgraçado tem a vida que eu queria ter. Troco de roupas, coloco o micro-ondas pra esquentar um miojo e ligo a tv pra assistir o jornal, durmo antes do miojo e do jornal.

Sábado de manhã. Eu acordo cedo para fazer exatamente nada, sento à mesa da cozinha e fico olhando o celular, esperando que ele toque e seja minha mulher me pedindo pra voltar, faço isso enquanto como o miojo da noite anterior, que me esperou a noite inteira fielmente dentro do micro-ondas, diferente do gato, que essa noite decidiu trepar logo no meu telhado, e não me deixou dormir direito. Agora ele está sentado no sofá que fica na minha frente, me encarando, como se fosse me bater a carteira e correr.

Sábado de noite. Eu ainda não tomei banho e provavelmente não vou tomar, sinceramente nem me importo mais com o meu cheiro, o gato se importa, não me abraça nem me lambe, como os gatos dos filmes fazem.

Domingo de manhã. Eu acordo com o celular tocando, meio sonolento eu atendo.


- Alô?

- Helquer? É a Inês, quero conversar com você...


Eu dou um salto da cama, minha mulher me ligou, está tudo chegando ao fim, verei meus filhos novamente, sentirei o gosto da boca dela e não precisarei mais morar num lugar onde minha única companheira é uma cama de solteiro.


- Oi Inês! Sim, sim! Vamos conversar!

- Helquer, eu quero que saiba que eu realmente gosto de você...

- Sim! Sim!

- ... Não posso mais viver do jeito que estou vivendo...

- Sim! Sim!

- ... A polícia me mostrou fotos de você rondando minha casa na semana passada, Helquer.

- O que?! É mentira!

- Eu sinceramente não posso viver aqui com as crianças, não enquanto você continuar sendo essa pessoa doentia que você é. Eu preciso de paz, eu preciso recomeçar, eu preciso encontrar alguém pra me apaixonar de verdade.

- Inês!

- Adeus, Helquer. Dê um beijo no Arthur por mim.


Domingo à noite. Este barulho, grito, choro, miado, sei lá o que é este barulho. Sei que está me irritando profundamente. Eu abro a porta do micro-ondas e quebro o maxilar de Arthur.

Agora vou poder dormir em paz.


(Por: C.O.)

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O estrago que causa uma vírgula

- Amor desculpa.
- Você nunca me chamou assim.
- Vocativo. Desculpa.
- O quê?
- Amor, desculpa.

(por: A. C.)

(Qual é o título?)

Se deus fosse sábio
ele faria a vida eterna
como uma fita rebobinada
da nossa vida,
vivida sempre de novo
por toda a eternidade.
Assim a gente viveria bem
Faria tudo o que desse vontade
Pra não ficar eternamente
se arrependendo
dessa vida pela metade
essa dor que não arde
e que nem sara
Essa existência sem graça
Chegava bem mais tarde da rua
Dormiria mais debaixo da lua
Se daria mais amor mais sexo
E buscaria muito menos nexo

(por: A. C.)

sábado, 24 de maio de 2008

Calibre 38

Quatro letras estarão no fim desta carta, não vá lá ler agora porque senão perde a graça, é sério.

Nesse momento eu estou portando um revólver calibre 38 e estou andando na SUA rua, em direção ao SEU prédio e ao SEU apartamento. Eu diria pra você não se assustar, mas seria mentira, é pra você se assustar sim.

Caralho, eu tô me sentindo o Stephen King agora... Escutou o som da campainha? Abra.



Não abriu? Está esperando o que? Que eu arrombe tua porta? Vá lá e abra.

Você abre, continua linda como sempre, a única diferença é que você continua linda como sempre, mas com dois filhos de um homem que não sou eu.

Veja como meu revólver brilha.

Clic.

(Por: C.O.)

sábado, 10 de maio de 2008

Não se espante, peço novamente

Mãe, escrevo essa carta às pressas porque a tinta de minha máquina está a se escassear e não pretendo recarregá-la. Até porque não viverei mais aqui.

Não se espante, vou te contar o que aconteceu comigo, mas te contarei pessoalmente.

Não se espante, peço novamente, sinto falta de cheiro de bosta de porco, de berro de galinha pela manhã e ainda por cima sinto falta do cheiro do teu almoço, mãe.

Sabe o que deixo aqui pra trás? Nada, minha mulher não é mais minha mulher, e junto a ela estão meus filhos que não são mais meus filhos. Sei que parece trágico, mas não é.

Mãe, tenho quarenta e sinto como se tivesse vinte. Minha vida vai começar agora, e quero que comece junta à senhora e o pai.

Não se espante, peço novamente, vá preparando aquela feijoada que a senhora sabe que eu gosto, e mostre pra vizinhança que eu estou voltando, tire suas roupas do varal como quem fosse viajar, não permita nem que Deus nos atrapalhe no nosso reencontro.

Diga pro pai que essa é só uma carta do banco, me deixe surpreender esse velho.

Diga pro compadre Tonho que eu ainda sei jogar futebol, ainda sei dar lençol.

Diga pro seu bezerro mais gordo aproveitar os últimos dias de vida, porque eu vou matá-lo e saborear a carne dele mergulhada em teu feijão.

Não se espante, peço novamente, não quero que te sintas desdenhada pelos anos que passei fora. Foram anos de aprendizado, e o que eu aprendi foi tudo aquilo que eu aprendi antes de desaprender.


(Por: C.O. )

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Seu Zé

Seu Zé acordou cedo e foi direto pra sala, ligou a televisão e assistiu a seleção brasileira ganhar a Copa do Mundo de 2002.
Seu Zé acordou assustado com o barulho que vinha da sala, foi ver o que diabos seu filho assistia e viu as torres gêmeas tombando.
Seu Zé acabou de almoçar e assistiu a mais um filme de cachorro que fala.
Seu Zé chegou cansado do trabalho, tomou um banho e pra relaxar, viu a Rita Cadillac chupar o pau de um garotão musculoso.

Seu Zé! Isso que é democracia!

(Por: C.O.)

Pedaço de carne

Domingo, a família toda está reunida à mesa porque eu vou morrer. Meu coração está tão saudável quanto um saco de lixo orgânico. Só de sacanagem eu pedi pra que minha mulher fizesse peru, a parte mais gordurosa eu pego pra mim.

- Seu Aroldo, quanto tempo que o senhor não vê sua família assim, reunida?

Quem perguntou foi minha nora, que eu não vejo a muito tempo, mais ou menos uns dois dias. A peste, mulher de meu filho mais novo, vive aqui dentro de casa, ela e seu filho recém nascido, que só não chora mais alto porque sua boca é pequena.

- Faz muito tempo, Amélia, muito tempo...

Amélia... É muita ironia num nome só.
Meu filho mais velho chega de carro, ele e suas malditas tecnologias, um computador portátil, uma babá eletrônica pra sua filha e um monte de videogames pro filho mais velho, que é gordo como uma porca.

- Pai! Eu soube que estava doente e vim o mais rápido que pude!
- Que bom meu filho, que bom...

Ele me abraça com seu terno que ainda tem cheiro de shopping, o verme não veio o mais rápido que pôde, veio depois de dar uma passada no centro comercial pra satisfazer as futilidades da puta com que se casou.

É noite, todos já foram embora, eu e minha mulher estamos deitados na cama, como fazemos todas as noites a cinqüenta anos, não fazemos nada de interessante. Conversamos sobre coisas fúteis: novela, futebol, política e sobre a vida fútil de nossos filhos e filhas.
Mas como a situação hoje é diferente, conversamos sobre minha morte.

- Aroldo, eu vi os pedaços de carne que você comeu hoje no almoço.
- E o que tem?
- Tinham gordura demais, meu amor.
- Eu sei.
- E ainda tens a cara-de-pau de afirmar?
- Sim.
- Quer morrer?
- Isso faz diferença? Eu vou morrer de qualquer jeito mulher, minhas veias mais parecem canos de processadores de lixo dos açougues mais sujos da cidade.
- E quanto a mim? E quanto a nossa família?
- Eu nunca amei vocês, e vocês sabem muito bem disso.

Eu me viro, fecho os olhos e durmo, durante o sono, tenho um ataque do coração e morro. Sempre gostei de finais surpreendentes.

(Por: C.O.)

domingo, 27 de abril de 2008

"Pseudo"


Sabe aqueles pseudo - intelectuais - que - curtem - Los - Hermanos - donos - da - verdade - que - se - sentem - o - máximo - em - suas - camisas - listradas ?


Pois é.


(Por: C.O.)

A valsa do vagão

Entrou, nada disse, tirou a presilha da sua sanfona e começou a tocar a sua valsa de beleza e melancolia. Quantas almas distraídas naquele vagão como a minha foram tomadas de espanto, e ouvindo a música ficaram em silêncio, um pouco mais felizes, um pouco mais modestas, perto da doce melodia que tomava o lugar.
Cada alma naquele vagão valsava ao som da sanfona. E um homem que sentia dor ficou com um ar tranqüilo, às vezes a dor dos outros é um analgésico pra nossa própria dor. Uma mulher que sentia saudades de um velho amor fechou os olhos e viu o seu querido num sonho acordado convidando-a pra valsar, tirando a sua tristeza, enchendo o lugar daquele doce aroma exalado pelos seres apaixonados, uma criancinha que chorava abriu um sorriso, e bateu palminha pra canção mais bela que seus ouvidinhos virgens já tinham ouvido, uma senhora sentiu-se moça e na sua idéia, que pra muitos seria louca, voltou ao salão de baile dos seus melhores anos e esqueceu-se das marcas no seu rosto e viu seu homem que havia partido há tanto, com um terno de gentilezas, curvando a sua cabeça para ela entrar nas suas doces memórias e bailar.
Vi de perto sua singela sanfona com uma tecla partida no início, seu pequeno instrumento de criar esperanças, amenizar dores, embalar amores. Ah! Meu anônimo ídolo! Você é como todos os artistas, cego, e não pode ver o bem que sua arte faz às almas em volta. Acabou de tocar sua canção e não esperava palmas, flores ou nenhuma grande manifestação de glória.
Recolocou a presilha na sua sanfona, todos nós voltamos a ouvir a desconexa percussão da estrada de ferro, e o maior de todos os artistas que já vi em minha vida, segurou sua bengala virou a palma de sua mão abençoada para o céu e seguiu para o próximo vagão, abençoando mais uma vez a todos que quando passavam tentavam recompensar o bem que lhes fizera e mais uma vez era nobre - nada pedia - e mais uma vez dava a sua benção e seguia sua valsa no escuro.
Muito obrigado, e se puder toca mais uma música pra gente sonhar.
(por: A. C.)

TRINTA ANOS

Aquele rapaz já está a duas horas mastigando aquele chiclete. Não tem mais açúcar, não tem mais gosto de menta. Só é mais um pedaço de indústria dançando e remoendo-se por entre os dentes amarelos dele.
Ele está me encarando, se eu não fosse tão conservadora, eu juro que ia ali e o agarrava, mas como eu sou, eu agarro é a minha bolsa e estalo os dedos como se não tivesse sessenta anos. Sou velha demais pra vir ao hospital sozinha, devia ter trazido meu neto comigo. Merda, o que estou dizendo, meu neto está na casa da namorada dele, essa hora eles devem estar trepando no sofá dos pais dela, ao mesmo tempo que estão atentos ao suor um do outro, estão atentos à maçaneta da porta da sala. Eu sei porque eu já tive dezessete e sei do prazer angustiante de trepar escondida.
Hoje eu tenho sessenta e estou sentada numa sala de espera de um hospital, a minha frente tem um rapaz que mastiga o mesmo chiclete a horas e também me encara a horas. Acho que eu estaria mais tranqüila se ele não fosse tão bonito. Ele se levantou, meu coração dispara e eu me sinto a quarenta e cinco anos atrás no baile de formatura do colegial, quando o menino que eu amava anonimamente se levantou e pegou na mão de minha melhor amiga... Por que diabos eu não o agarrei antes?Agora é tarde pra meditar sobre isso, o guri que mastiga o chiclete está mais próximo, agora eu tenho certeza que é a mim que ele quer falar. Eu já não disfarço mais meu desespero e o encaro nos olhos, como se soubesse o que vem a seguir, sem sombras de dúvida é um marginal que vai me levar os cartões de crédito.

- O nome da senhora é Odete?

Meu coração pára por um segundo e minhas pernas tremem como se fossem as paredes de um motel barato.

- Sim...

Eu gaguejo. Ele começa a chorar.

- Meu pai, dona Odete, se chamava Arthur.
- Desculpe meu jovem, mas eu não conheci nenhum Arthur, e por quê está chorando?
- A senhora me diz que não conheceu nenhum Arthur? Pois saiba que esse homem que a senhora nunca conheceu, procurou pela senhora por trinta anos da vida dele, porque te devia uma dança.

As paredes do motel barato já haviam desabado. Arthur, a vinte e cinco anos atrás se levantou e pegou nas mãos de minha melhor amiga.

- Sim meu jovem, eu me lembro de Arthur, onde ele está?
- Morto.

Os bombeiros já haviam chegado pra resgatar os sobreviventes no meio dos escombros do motel barato.

Ah, se eu o tivesse agarrado naquela noite, ele também me queria.
Eu me levanto, agora eu já sei o porquê daquele jovem ser tão bonito. Caminho para o lado de fora do hospital, pego o celular e ligo pro meu neto. Ele atende com a voz ofegante.
- O que foi vó?! Eu tô ocupado! - Eu sei, só quero dar-te um conselho: trepe, beije, chupe e ame bastante essa menina no sofá dos pais dela, porque essa putinha hoje, pode te tirar trinta anos de vida.

(por: C. O.)

"As frases bonitas são repetidas"

"As frases bonitas são repetidas"
Caço palavras fugitivas
Escondidas em algum lugar
Entre a boca e o coração
Caço palavras bonitas
Mentiras inocentes
sinceras ou não

Caço a palavra que diga
Palavra de olhos de pele de mãos
Caço a palavra esquisita
singular ou plural decisiva ou não

Caço as palavras de uma frase
bonita
Por que todas as frases bonitas
sempre são repetidas
Todas as frases bonitas são repetidas

(por: A. C.)