sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Um blues, buzz
Toda estrela perdeu a importância
Nós não temos mais nenhum lugar
Nossas vidas não moram mais por lá
Tanta distância cheia de estrelas
Um blues acompanha a tristeza
Num lugar cheio de ninguém
Nossas vidas não valem um vintém
Sorte de quem tem
Sorte de quem tem
Alguém
Muito além
Sorte de quem tem
Sorte de quem tem
Alguém muito além
Do bem e do mal
Do Início e do final
Do Café e do jornal
Do caso e casual
Da casa e do casal de
Sorte, de quem tem
Essa noite cheia de distância
Do mundo sem importância
Das buzinas e ambulâncias
Dos bonzinhos, da ignorância
Sorte de quem
Sorte de quem
Tem
Uma vida afinal distante
Do bispo e do jornal
Do horário eleitoral
(Por: A.C.)
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Amélia, é que era mulher de verdade.
Amélia, me tratava como mãe, e era flor e era puta, pura melancolia dos trópicos, algo azedo de limão, mas que descia bem com qualquer destilado.
- Amélia, por que você deixou teu dengo, teu galego, teu xodó, Amélia? – Pergunta a irmã encalhada.
E Amélia responde, cheia de certeza empertigada, e uma dor dilacerante na alma – É que o canalha não me traía, não me fazia sofrer! – dizia ela indignada – Era só, meu bem pra lá, neguinha pra cá, e me dá cheiro no cangote e rabada com agrião e azeite, mas nada de dor!
E vá deus querer brincar de contar quantas Amélias existem por cá.
(por A.C)
Amélia, é que era mulher de verdade
segunda-feira, 26 de maio de 2008
O estrago que causa uma vírgula
- Você nunca me chamou assim.
- Vocativo. Desculpa.
- O quê?
- Amor, desculpa.
(por: A. C.)
sábado, 10 de maio de 2008
Não se espante, peço novamente
Mãe, escrevo essa carta às pressas porque a tinta de minha máquina está a se escassear e não pretendo recarregá-la. Até porque não viverei mais aqui.
Não se espante, vou te contar o que aconteceu comigo, mas te contarei pessoalmente.
Não se espante, peço novamente, sinto falta de cheiro de bosta de porco, de berro de galinha pela manhã e ainda por cima sinto falta do cheiro do teu almoço, mãe.
Sabe o que deixo aqui pra trás? Nada, minha mulher não é mais minha mulher, e junto a ela estão meus filhos que não são mais meus filhos. Sei que parece trágico, mas não é.
Mãe, tenho quarenta e sinto como se tivesse vinte. Minha vida vai começar agora, e quero que comece junta à senhora e o pai.
Não se espante, peço novamente, vá preparando aquela feijoada que a senhora sabe que eu gosto, e mostre pra vizinhança que eu estou voltando, tire suas roupas do varal como quem fosse viajar, não permita nem que Deus nos atrapalhe no nosso reencontro.
Diga pro pai que essa é só uma carta do banco, me deixe surpreender esse velho.
Diga pro compadre Tonho que eu ainda sei jogar futebol, ainda sei dar lençol.
Diga pro seu bezerro mais gordo aproveitar os últimos dias de vida, porque eu vou matá-lo e saborear a carne dele mergulhada em teu feijão.
Não se espante, peço novamente, não quero que te sintas desdenhada pelos anos que passei fora. Foram anos de aprendizado, e o que eu aprendi foi tudo aquilo que eu aprendi antes de desaprender.
domingo, 27 de abril de 2008
TRINTA ANOS
Ele está me encarando, se eu não fosse tão conservadora, eu juro que ia ali e o agarrava, mas como eu sou, eu agarro é a minha bolsa e estalo os dedos como se não tivesse sessenta anos. Sou velha demais pra vir ao hospital sozinha, devia ter trazido meu neto comigo. Merda, o que estou dizendo, meu neto está na casa da namorada dele, essa hora eles devem estar trepando no sofá dos pais dela, ao mesmo tempo que estão atentos ao suor um do outro, estão atentos à maçaneta da porta da sala. Eu sei porque eu já tive dezessete e sei do prazer angustiante de trepar escondida.
Hoje eu tenho sessenta e estou sentada numa sala de espera de um hospital, a minha frente tem um rapaz que mastiga o mesmo chiclete a horas e também me encara a horas. Acho que eu estaria mais tranqüila se ele não fosse tão bonito. Ele se levantou, meu coração dispara e eu me sinto a quarenta e cinco anos atrás no baile de formatura do colegial, quando o menino que eu amava anonimamente se levantou e pegou na mão de minha melhor amiga... Por que diabos eu não o agarrei antes?Agora é tarde pra meditar sobre isso, o guri que mastiga o chiclete está mais próximo, agora eu tenho certeza que é a mim que ele quer falar. Eu já não disfarço mais meu desespero e o encaro nos olhos, como se soubesse o que vem a seguir, sem sombras de dúvida é um marginal que vai me levar os cartões de crédito.
- O nome da senhora é Odete?
Meu coração pára por um segundo e minhas pernas tremem como se fossem as paredes de um motel barato.
- Sim...
Eu gaguejo. Ele começa a chorar.
- Meu pai, dona Odete, se chamava Arthur.
- Desculpe meu jovem, mas eu não conheci nenhum Arthur, e por quê está chorando?
- A senhora me diz que não conheceu nenhum Arthur? Pois saiba que esse homem que a senhora nunca conheceu, procurou pela senhora por trinta anos da vida dele, porque te devia uma dança.
As paredes do motel barato já haviam desabado. Arthur, a vinte e cinco anos atrás se levantou e pegou nas mãos de minha melhor amiga.
- Sim meu jovem, eu me lembro de Arthur, onde ele está?
- Morto.
Os bombeiros já haviam chegado pra resgatar os sobreviventes no meio dos escombros do motel barato.
Ah, se eu o tivesse agarrado naquela noite, ele também me queria.
Eu me levanto, agora eu já sei o porquê daquele jovem ser tão bonito. Caminho para o lado de fora do hospital, pego o celular e ligo pro meu neto. Ele atende com a voz ofegante.
- O que foi vó?! Eu tô ocupado! - Eu sei, só quero dar-te um conselho: trepe, beije, chupe e ame bastante essa menina no sofá dos pais dela, porque essa putinha hoje, pode te tirar trinta anos de vida.
(por: C. O.)
